Superlativa: Kawasaki ZX-14R 2013
Enviado: 06 Set 2012, 04:06
SUPERLATIVA
Kawasaki ZX-14R 2013


Estou a 4 dias buscando as melhores palavras para traduzir o que significa andar numa Kawasaki Ninja ZX-14R pela primeira vez. Além da dificuldade em enumerar todas as qualidades da moto, falta incluir na equação o fator complicador que é a própria falta de comparáveis experiências prévias deste escriba. Em poucas palavras: nunca andei de Hayabusa. Mas isso não impede a avaliação da moto...
Três números arredondados são suficientes para forjar a perspectiva em ordem de grandeza. São 210hp, 16kg de torque e 270kg. A potência é maior do que qualquer superesportiva. O torque é de carro, desses que carregam famílias. O peso é de custom. Será que tem como dar certo? Aos incrédulos, não.
Eu ia começar a falar dela parada, do design, etc. Vou deixar para falar disso no final. Vamos logo ao que importa. Como ela anda. Aliás, anda... e como anda!
Start. Qué-qué-vrrrruuuuuummm.... Som típico de quatro cilindros amordaçados pelas enormes ponteiras de escapamento. Chama atenção a marcha-lenta bastante regular a menos de 1.500rpm, sinal de um comando de válvulas “manso”. A embreagem apesar de hidráulica é durinha, sinceramente nenhuma surpresa nesse nível de potência. Pedal pra baixo, CLUNCK! Um belo tranco já mostra que vem muita força desse powertrain...
A embreagem hidráulica é facílima de dosar. Apesar da potência e do torque disponíveis, a moto é dócil. Pera aí, dócil? Enrola o da direita pra você ver... Desde a marcha-lenta o motor já entrega um torque absurdo, a moto empurra demais! Continue com o da direita enrolado até o corte e você percebe um motor muito elástico e linear. Existe um notável incremento de força a partir de 6 ou 7.000 giros, mas apesar disso o motor permanece previsível e em momento algum vem um salto de torque que desequilibre a moto. Ela simplesmente vai, vai, vai... A caixa é muitíssimo bem escalonada e é muito fácil manter o motor sempre cheio. Na verdade é tanta força que o motor parece estar sempre “cheio”, mas a caixa facilita a sua vida para escolher a rotação que você quiser em praticamente qualquer velocidade desde que essa seja alta.
O torque monstruoso do motor define a moto. A qualquer rotação, em qualquer rpm, você tem à sua disposição uma fonte inesgotável de aceleração. É tanta força que andar na cidade de forma controlada chega a ser chato, porque você realmente não acelera para a moto andar. Basta abrir o acelerador em coisa de 10% do seu curso e você sem perceber já vai exceder todo e qualquer limite de velocidade urbano. Definitivamente, a cidade não é o habitat dessa moto. Dá para usar, claro, é perfeitamente possível manter um cruzeiro de 60 ou até mesmo 40km/h. Até menos se você precisar. Mas a sensação de estar amordaçado é terrível, a moto roda mansa mas ao mesmo tempo implora por uma acelerada que lhe encha os cilindros e faça aquele motorzão respirar a vontade! Para ilustrar, imagine que você ganhou uma noite com a Nicole Bahls. Mas ela vai passar a noite inteira com um hábito de freira. Dá pra se divertir? Até dá mas é sofrido né? Pois então...
E acelerando, como é? Bom... Não dá para descrever. Na verdade é difícil até entender a aceleração da moto enquanto você está sentado ali. Felizmente o cérebro eletrônico dela é tão inteligente que o piloto não precisa pensar muito. Trave os joelhos no tanque, abaixe o corpo, apóie seu peso nas pedaleiras e enrola o da direita... Imediatamente o seu corpo é obrigado a se contrair para que a moto não suma debaixo de você. E ela vai... O controle de tração e anti-wheelie são fundamentais para que você se sinta o próprio Valentino Rossi na largada de um GP de motovelocidade. Em primeira marcha a moto tira a roda dianteira do chão, mas só um pouco. Não sobe muito. E você lá agarrado nela não alivia o acelerador por nada. Troca para segunda, trocar para terceira, troca para quarta, troca para quinta, a moto não para de acelerar nunca... Troca para sexta, caramba, a moto ainda está empurrando com uma força descomunal e você passou pela barreira dos 300km/h num espaço muito curto, é uma coisa absolutamente incrível. Ao romper os 200km/h você apenas percebe muito vento passando por você mas a aceleração da moto continua a mesma, o velocímetro engole dezenas de km/h no painel no mesmo ritmo que o velocímetro de quase qualquer outra coisa que se mova com motor a pistão engole unidades.
Durante o nosso teste não foi possível aferir com precisão os números de desempenho da moto, mas me arrisco a dizer que ela acelera de 200 a 300km/h em menos tempo do que um carro hatch 1.6 brasileiro demora para acelerar de 0 a 100km/h. A moto em si é muito bem projetada e encara esse esforço numa boa, o limite é o piloto. Sempre.
O entre-eixos longo e a grande massa da motocicleta tiram um pouco da sua agilidade se comparada a motos esportivas menores e mais leves. Mas lembre-se que essa é uma moto desenhada para altíssimas velocidades e nestas condições a estabilidade dela impressiona demais. Claro que é difícil fazer com que ela mude de direção rapidamente. Ela muda, mas exige muita força no contra-esterço. Mas você não roda a mais de 200km/h num trecho sinuoso de serra. Essas velocidades absurdas são obtidas em locais menos travados com curvas de raio mais longo e nesse ambiente a ZX-14R se destaca de forma impressionante. Você define a linha desejada, dá o seu input inicial na moto e ela obedece imediatamente, assumindo a inclinação e esterço necessários praticamente sozinhos. Ela fica tao estável e controlada durante as curvas que você precisa até ordenar que ela volte a ficar em pé e em linha reta, ao contrário de todas as outras motos (mesmo esportivas) em que você na verdade mantém a ordem de inclinação durante a curva e vai reduzindo o input para que ela levante sozinha.
Depois de ler isso você pensa “Ah, então deve ser horrível em uma pista sinuosa e lenta”. E é aí que vem a maior de todas as surpresas: Não é! Claro que você precisa fazer força no contra-esterço para deitar a moto, mas ela deita. Fácil e rápido. Mais uma vez tentando criar uma comparação fácil de digerir, é como se motos esportivas leves fossem carros com direção hidráulica e ela fosse um carro sem direção hidráulica. Exige um pouco mais de força mas executa praticamente as mesmas tarefas de forma exemplar. Num circuito onde se deseja o máximo de desempenho, é claro que uma superesportiva ultraleve vai levar bastante vantagem. Mas no mundo real onde as pessoas procuram apenas diversão segura, a ZX-14R é capaz de entregar sorrisos que são difíceis de retirar do rosto depois de descer da moto!
Se a sua idéia é usar a moto em autódromo, a ZX-14R não é a melhor escolha. Para isso existem as superesportivas de 1 litro. Mas para fazer viagens a “mille quatro” tem suas vantagens. Começando pelo banco largo e macio, passando pelos semi-guidons posicionados acima da mesa de direção e incluindo as pedaleiras altas ‘pero no mucho’, a moto não massacra o piloto em percursos mais longos. O tanque é grande, 22 litros, mas o consumo da moto fica entre 12 e 16km/l dependendo do ânimo do piloto. Isso significa que a autonomia segura gira em torno de duas horas a duas horas e meia, tempo ideal para uma rápida esticada nas pernas e o feliz viajante encontra-se novamente apto a encarar mais um tanque de estrada. A moto é espaçosa e permite algum conforto até enquanto o piloto “carena” em alta velocidade, mas para cruzeiros de até 200km/h é possível pilotar a moto razoavelmente ereto e ainda protegido do vento pelas enormes carenagens.
Já que paramos para abastecer, vamos falar do design... Parada, a moto já exala força e velocidade. Seu desenho melhorou muito nessa nova versão 2013, principalmente na frente. Na minha opinião, ficou bem melhor do que a antiga. Mais agressiva ao mesmo tempo mais harmoniosa e mais fluida. Porém não tem como negar que a moto é grande. GRANDE. Você não precisa procurar onde estão os 270kg, é bem visível que as largas carenagens escondem muita massa. Se suas linhas são belas ou não, realmente depende do olho do examinador. Mas é indiscutível que a moto é bastante proporcional. Tudo está no lugar certo e faz sentido.
Muito da controvérsia do seu desenho vem do fato de que essa moto foge do lugar comum das esportivas da atualidade. Por exemplo, em coisas que hoje parecem retrô como a rabeta larga e as duas enormes ponteiras de descarga. Olhar a moto por trás dá uma sensação de “anos 90” para ela. A lanterna leitosa reforça essa impressão. Mas tudo é tão grande que o largo pneu de 190mm compõe o visual de forma adequada, sem se destacar. As rodas de alumínio polido combinam muito bem com a pintura verde metálica. Já os “flames” da pintura parecem um pouco fora de propósito. Remetem à cultura Hot-Rod americana, de enfiar o maior motor possível dentro de um carro ou de uma moto. Mas Hot-Rod é coisa de americano, V8, big displacement. Essa moto é japonesa, a terra do downsizing e eficiência. Culturas opostas e de certa forma contraditórias, mesmo que o Team Green tenha enfiado um motorzão no meio das suas pernas. Eu não entendi os Flames. Mas na minha opinião pessoal, essa ZX-14R 2013 verde metálica ficou linda. Dentro da realidade dela que é ser uma moto gigante, porém, linda.
Linda ou feia, controvérsias a parte, a moto chama muita atenção. Passeando na cidade ou parada em qualquer lugar, poucos são os que passam sem notá-la. É impressionante a quantidade de motociclistas que puxa conversa nos semáforos, todos admiram e elogiam a moto. Em três ocasiões no mesmo dia em cidades diferentes, durante simples abastecimentos em postos de gasolina, a moto foi cercada. Não apenas pelos frentistas mas por pessoas que estavam abastecendo seus carros. Não faltam perguntas sobre a moto e a cara generalizada de espanto ao ouvirem a resposta para a pergunta “Quantas cilindradas?” Crianças parecem hipnotizadas pelas linha da moto. Celulares surgem a todo momento para registrar o raro encontro com uma ZX-14R. Mulheres são atraídas pela moto e rapidamente buscam os olhos que seguem dentro do capacete do piloto... Discrição? Passou longe!
Para finalizar, detalhes sobre ergonomia e eletrônica. A moto é larga, muito larga. E tem que ser assim para guardar o motorzão de 1400cc e os radiadores maiores ainda. O banco largo acaba afastando as pernas, não é moto para baixinhos. Quem tem menos de 1,70 provavelmente vai ter dificuldades para manobrar. Impossível não deve ser. No mínimo, difícil. Chave no contato, os ponteiros dos mostradores analógicos fazem a varredura completa da escala como é praxe em qualquer veículo hoje em dia. Velocímetro e contagiros analógicos, felizmente. Digitais são interessantes mas nada substitui um ponteiro de fácil e rápida visualização. E a dificuldade de proteger uma tela eletrônica dos reflexos do sol numa moto as vezes as tornam perigosamente ilegíveis. O grande mostrador auxiliar se acende com o pictograma dos faróis da moto e logo passa a mostrar o que se espera de uma moto dessas. Três odômetros (total e dois parciais), mapa de potência do motor (Low ou Full), controle de tração em quatro níveis (desligado, 1, 2 e 3), indicador de marcha, consumo médio, consumo instantâneo (atualizado a cada 2 ou 3 segundos), autonomia. Essas opções todas você escolhe num seletor no manete esquerdo ao alcance do polegar.
O modo de potência Low deixa a moto mais dócil e mais fraca. Mesmo assim você continua com um mundo de torque disponível, muito mais do que em qualquer moto de 600 ou 750cc. No modo full, bem... Se segure! O controle de tração no modo 3 é bastante intrusivo e desagrada um pouco. Deve ser bom para a chuva, somente. O modo 2 é bem menos incômodo e se faz notar principalmente pelo anti-wheelie agressivo que quase não deixa a roda dianteira sair do chão. No modo 1 já se exige mais talento do piloto nas arrancadas. O modo desligado não foi testado em via pública por absoluta falta de necessidade. Nos modos 1 e 2 há força e controle suficientes para aproveitar toda a potência que o motor tem para entregar.
Os 4 faróis apresentam iluminação incomum em motos. Com alcance suficiente para garantir segurança ao rodar a noite em velocidades de 120km/h e um facho amplo que ilumina quase toda a largura de uma estrada de duas pistas. Se a sua viagem se extender durante o período da noite essa moto lhe garante um conforto visual semelhante ao de um carro.
Concluindo, a Kawasaki ZX-14R é uma moto superlativa. Em tudo. Inclusive na diversão que proporciona! É impossível passar ileso por um contato com essa brilhante motocicleta.
Kawasaki ZX-14R 2013


Estou a 4 dias buscando as melhores palavras para traduzir o que significa andar numa Kawasaki Ninja ZX-14R pela primeira vez. Além da dificuldade em enumerar todas as qualidades da moto, falta incluir na equação o fator complicador que é a própria falta de comparáveis experiências prévias deste escriba. Em poucas palavras: nunca andei de Hayabusa. Mas isso não impede a avaliação da moto...
Três números arredondados são suficientes para forjar a perspectiva em ordem de grandeza. São 210hp, 16kg de torque e 270kg. A potência é maior do que qualquer superesportiva. O torque é de carro, desses que carregam famílias. O peso é de custom. Será que tem como dar certo? Aos incrédulos, não.
Eu ia começar a falar dela parada, do design, etc. Vou deixar para falar disso no final. Vamos logo ao que importa. Como ela anda. Aliás, anda... e como anda!
Start. Qué-qué-vrrrruuuuuummm.... Som típico de quatro cilindros amordaçados pelas enormes ponteiras de escapamento. Chama atenção a marcha-lenta bastante regular a menos de 1.500rpm, sinal de um comando de válvulas “manso”. A embreagem apesar de hidráulica é durinha, sinceramente nenhuma surpresa nesse nível de potência. Pedal pra baixo, CLUNCK! Um belo tranco já mostra que vem muita força desse powertrain...
A embreagem hidráulica é facílima de dosar. Apesar da potência e do torque disponíveis, a moto é dócil. Pera aí, dócil? Enrola o da direita pra você ver... Desde a marcha-lenta o motor já entrega um torque absurdo, a moto empurra demais! Continue com o da direita enrolado até o corte e você percebe um motor muito elástico e linear. Existe um notável incremento de força a partir de 6 ou 7.000 giros, mas apesar disso o motor permanece previsível e em momento algum vem um salto de torque que desequilibre a moto. Ela simplesmente vai, vai, vai... A caixa é muitíssimo bem escalonada e é muito fácil manter o motor sempre cheio. Na verdade é tanta força que o motor parece estar sempre “cheio”, mas a caixa facilita a sua vida para escolher a rotação que você quiser em praticamente qualquer velocidade desde que essa seja alta.
O torque monstruoso do motor define a moto. A qualquer rotação, em qualquer rpm, você tem à sua disposição uma fonte inesgotável de aceleração. É tanta força que andar na cidade de forma controlada chega a ser chato, porque você realmente não acelera para a moto andar. Basta abrir o acelerador em coisa de 10% do seu curso e você sem perceber já vai exceder todo e qualquer limite de velocidade urbano. Definitivamente, a cidade não é o habitat dessa moto. Dá para usar, claro, é perfeitamente possível manter um cruzeiro de 60 ou até mesmo 40km/h. Até menos se você precisar. Mas a sensação de estar amordaçado é terrível, a moto roda mansa mas ao mesmo tempo implora por uma acelerada que lhe encha os cilindros e faça aquele motorzão respirar a vontade! Para ilustrar, imagine que você ganhou uma noite com a Nicole Bahls. Mas ela vai passar a noite inteira com um hábito de freira. Dá pra se divertir? Até dá mas é sofrido né? Pois então...
E acelerando, como é? Bom... Não dá para descrever. Na verdade é difícil até entender a aceleração da moto enquanto você está sentado ali. Felizmente o cérebro eletrônico dela é tão inteligente que o piloto não precisa pensar muito. Trave os joelhos no tanque, abaixe o corpo, apóie seu peso nas pedaleiras e enrola o da direita... Imediatamente o seu corpo é obrigado a se contrair para que a moto não suma debaixo de você. E ela vai... O controle de tração e anti-wheelie são fundamentais para que você se sinta o próprio Valentino Rossi na largada de um GP de motovelocidade. Em primeira marcha a moto tira a roda dianteira do chão, mas só um pouco. Não sobe muito. E você lá agarrado nela não alivia o acelerador por nada. Troca para segunda, trocar para terceira, troca para quarta, troca para quinta, a moto não para de acelerar nunca... Troca para sexta, caramba, a moto ainda está empurrando com uma força descomunal e você passou pela barreira dos 300km/h num espaço muito curto, é uma coisa absolutamente incrível. Ao romper os 200km/h você apenas percebe muito vento passando por você mas a aceleração da moto continua a mesma, o velocímetro engole dezenas de km/h no painel no mesmo ritmo que o velocímetro de quase qualquer outra coisa que se mova com motor a pistão engole unidades.
Durante o nosso teste não foi possível aferir com precisão os números de desempenho da moto, mas me arrisco a dizer que ela acelera de 200 a 300km/h em menos tempo do que um carro hatch 1.6 brasileiro demora para acelerar de 0 a 100km/h. A moto em si é muito bem projetada e encara esse esforço numa boa, o limite é o piloto. Sempre.
O entre-eixos longo e a grande massa da motocicleta tiram um pouco da sua agilidade se comparada a motos esportivas menores e mais leves. Mas lembre-se que essa é uma moto desenhada para altíssimas velocidades e nestas condições a estabilidade dela impressiona demais. Claro que é difícil fazer com que ela mude de direção rapidamente. Ela muda, mas exige muita força no contra-esterço. Mas você não roda a mais de 200km/h num trecho sinuoso de serra. Essas velocidades absurdas são obtidas em locais menos travados com curvas de raio mais longo e nesse ambiente a ZX-14R se destaca de forma impressionante. Você define a linha desejada, dá o seu input inicial na moto e ela obedece imediatamente, assumindo a inclinação e esterço necessários praticamente sozinhos. Ela fica tao estável e controlada durante as curvas que você precisa até ordenar que ela volte a ficar em pé e em linha reta, ao contrário de todas as outras motos (mesmo esportivas) em que você na verdade mantém a ordem de inclinação durante a curva e vai reduzindo o input para que ela levante sozinha.
Depois de ler isso você pensa “Ah, então deve ser horrível em uma pista sinuosa e lenta”. E é aí que vem a maior de todas as surpresas: Não é! Claro que você precisa fazer força no contra-esterço para deitar a moto, mas ela deita. Fácil e rápido. Mais uma vez tentando criar uma comparação fácil de digerir, é como se motos esportivas leves fossem carros com direção hidráulica e ela fosse um carro sem direção hidráulica. Exige um pouco mais de força mas executa praticamente as mesmas tarefas de forma exemplar. Num circuito onde se deseja o máximo de desempenho, é claro que uma superesportiva ultraleve vai levar bastante vantagem. Mas no mundo real onde as pessoas procuram apenas diversão segura, a ZX-14R é capaz de entregar sorrisos que são difíceis de retirar do rosto depois de descer da moto!
Se a sua idéia é usar a moto em autódromo, a ZX-14R não é a melhor escolha. Para isso existem as superesportivas de 1 litro. Mas para fazer viagens a “mille quatro” tem suas vantagens. Começando pelo banco largo e macio, passando pelos semi-guidons posicionados acima da mesa de direção e incluindo as pedaleiras altas ‘pero no mucho’, a moto não massacra o piloto em percursos mais longos. O tanque é grande, 22 litros, mas o consumo da moto fica entre 12 e 16km/l dependendo do ânimo do piloto. Isso significa que a autonomia segura gira em torno de duas horas a duas horas e meia, tempo ideal para uma rápida esticada nas pernas e o feliz viajante encontra-se novamente apto a encarar mais um tanque de estrada. A moto é espaçosa e permite algum conforto até enquanto o piloto “carena” em alta velocidade, mas para cruzeiros de até 200km/h é possível pilotar a moto razoavelmente ereto e ainda protegido do vento pelas enormes carenagens.
Já que paramos para abastecer, vamos falar do design... Parada, a moto já exala força e velocidade. Seu desenho melhorou muito nessa nova versão 2013, principalmente na frente. Na minha opinião, ficou bem melhor do que a antiga. Mais agressiva ao mesmo tempo mais harmoniosa e mais fluida. Porém não tem como negar que a moto é grande. GRANDE. Você não precisa procurar onde estão os 270kg, é bem visível que as largas carenagens escondem muita massa. Se suas linhas são belas ou não, realmente depende do olho do examinador. Mas é indiscutível que a moto é bastante proporcional. Tudo está no lugar certo e faz sentido.
Muito da controvérsia do seu desenho vem do fato de que essa moto foge do lugar comum das esportivas da atualidade. Por exemplo, em coisas que hoje parecem retrô como a rabeta larga e as duas enormes ponteiras de descarga. Olhar a moto por trás dá uma sensação de “anos 90” para ela. A lanterna leitosa reforça essa impressão. Mas tudo é tão grande que o largo pneu de 190mm compõe o visual de forma adequada, sem se destacar. As rodas de alumínio polido combinam muito bem com a pintura verde metálica. Já os “flames” da pintura parecem um pouco fora de propósito. Remetem à cultura Hot-Rod americana, de enfiar o maior motor possível dentro de um carro ou de uma moto. Mas Hot-Rod é coisa de americano, V8, big displacement. Essa moto é japonesa, a terra do downsizing e eficiência. Culturas opostas e de certa forma contraditórias, mesmo que o Team Green tenha enfiado um motorzão no meio das suas pernas. Eu não entendi os Flames. Mas na minha opinião pessoal, essa ZX-14R 2013 verde metálica ficou linda. Dentro da realidade dela que é ser uma moto gigante, porém, linda.
Linda ou feia, controvérsias a parte, a moto chama muita atenção. Passeando na cidade ou parada em qualquer lugar, poucos são os que passam sem notá-la. É impressionante a quantidade de motociclistas que puxa conversa nos semáforos, todos admiram e elogiam a moto. Em três ocasiões no mesmo dia em cidades diferentes, durante simples abastecimentos em postos de gasolina, a moto foi cercada. Não apenas pelos frentistas mas por pessoas que estavam abastecendo seus carros. Não faltam perguntas sobre a moto e a cara generalizada de espanto ao ouvirem a resposta para a pergunta “Quantas cilindradas?” Crianças parecem hipnotizadas pelas linha da moto. Celulares surgem a todo momento para registrar o raro encontro com uma ZX-14R. Mulheres são atraídas pela moto e rapidamente buscam os olhos que seguem dentro do capacete do piloto... Discrição? Passou longe!
Para finalizar, detalhes sobre ergonomia e eletrônica. A moto é larga, muito larga. E tem que ser assim para guardar o motorzão de 1400cc e os radiadores maiores ainda. O banco largo acaba afastando as pernas, não é moto para baixinhos. Quem tem menos de 1,70 provavelmente vai ter dificuldades para manobrar. Impossível não deve ser. No mínimo, difícil. Chave no contato, os ponteiros dos mostradores analógicos fazem a varredura completa da escala como é praxe em qualquer veículo hoje em dia. Velocímetro e contagiros analógicos, felizmente. Digitais são interessantes mas nada substitui um ponteiro de fácil e rápida visualização. E a dificuldade de proteger uma tela eletrônica dos reflexos do sol numa moto as vezes as tornam perigosamente ilegíveis. O grande mostrador auxiliar se acende com o pictograma dos faróis da moto e logo passa a mostrar o que se espera de uma moto dessas. Três odômetros (total e dois parciais), mapa de potência do motor (Low ou Full), controle de tração em quatro níveis (desligado, 1, 2 e 3), indicador de marcha, consumo médio, consumo instantâneo (atualizado a cada 2 ou 3 segundos), autonomia. Essas opções todas você escolhe num seletor no manete esquerdo ao alcance do polegar.
O modo de potência Low deixa a moto mais dócil e mais fraca. Mesmo assim você continua com um mundo de torque disponível, muito mais do que em qualquer moto de 600 ou 750cc. No modo full, bem... Se segure! O controle de tração no modo 3 é bastante intrusivo e desagrada um pouco. Deve ser bom para a chuva, somente. O modo 2 é bem menos incômodo e se faz notar principalmente pelo anti-wheelie agressivo que quase não deixa a roda dianteira sair do chão. No modo 1 já se exige mais talento do piloto nas arrancadas. O modo desligado não foi testado em via pública por absoluta falta de necessidade. Nos modos 1 e 2 há força e controle suficientes para aproveitar toda a potência que o motor tem para entregar.
Os 4 faróis apresentam iluminação incomum em motos. Com alcance suficiente para garantir segurança ao rodar a noite em velocidades de 120km/h e um facho amplo que ilumina quase toda a largura de uma estrada de duas pistas. Se a sua viagem se extender durante o período da noite essa moto lhe garante um conforto visual semelhante ao de um carro.
Concluindo, a Kawasaki ZX-14R é uma moto superlativa. Em tudo. Inclusive na diversão que proporciona! É impossível passar ileso por um contato com essa brilhante motocicleta.



